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Festa Nacional da Música -

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Integrantes do Fundo de Quintal com Gabriel, O Pensador, na Festa Nacional da Música. (Graça Paes/Especial) Integrantes do Fundo de Quintal com Gabriel, O Pensador, na Festa Nacional da Música. (Graça Paes/Especial) Clique aqui para baixar a imagem em alta resolução

O berço do samba

Patriarca do samba contemporâneo, o Fundo de Quintal está mais ativo do que nunca. As quatro décadas de história são consagradas com esta homenagem, no Prêmio Festa Nacional da Música, ao melhor estilo do grupo: uma reunião entre amigos muito especiais

As revoluções são silenciosas, dizem. Não nascem com discursos pomposos nem com balas de canhões. No samba, a última grande revolução não surgiu com nenhuma superprodução carnavalesca nem com discos arrasa-quarteirões. Ela raiou em um humilde fundo de quintal.

Se o samba contemporâneo tem um berço, ele deve estar no subúrbio de Ramos, no Rio de Janeiro. O bairro deu nome a um dos blocos de Carnaval mais populares do país desde o seu surgimento, em 1961, até hoje: o Cacique de Ramos. E não apenas isso. Dentro daquele bloco, alguns anos depois, surgiram alguns artistas que revolucionariam o samba, o pagode e o partido alto como integrantes do Fundo de Quintal.

Os patriarcas daquela família e remanescentes da formação original são Bira Presidente, Ubirany e Sereno. A eles, somaram-se Ademir Batera, Márcio Alexandre e Júnior Itaguaí. No começo, a intenção não era montar um conjunto e atingir sucesso musical. Porém, com o tempo, o que acontecia naquelas reuniões mudou o rumo da música popular brasileira.

“Não tínhamos nem ideia. Simplesmente nos reuníamos, brincávamos com nossos instrumentos novos”, diz Ubirany. “Tinha uma turma da composição, que surgiu com letras mais trabalhadas. Pessoas que davam o valor devido a isso. Era uma brincadeira, mas não tanto assim. Ficou séria, e acabou se transformando em um movimento da MPB.”

Amigos acumulados pelo longo caminho

Além de lançar álbuns e manter a rotina de shows, o repertório está nas plataformas digitais e, em 2015, o Fundo de Quintal venceu o Grammy Latino na categoria Melhor Álbum de Samba com o disco “Só Felicidade”. São 33 ao longo da carreira, sendo 15 deles premiados com o disco de ouro e quatro com o de platina.

O grupo segue em turnê ao lado da madrinha Beth Carvalho, que se apresenta deitada em um divã devido a um problema de coluna. Para um grupo tão longevo, esta é uma questão importante. Muitos artistas estiveram em diversas formações do Fundo de Quintal: Jorge Aragão, Arlindo Cruz, Walter Sete Cordas. Alguns faleceram, e guardá-los na lembrança e homenageá-los nos shows é, para Ubirany, uma maneira de manter viva a memória musical de todos eles, relembrando Neoci Dias de Andrade, Mário Sérgio, Almir Guineto, Arlindo Cruz, que se recupera de um acidente vascular cerebral, e Beth.

Para Ubirany, o Fundo de Quintal deixa como legado à MPB uma dupla marca: o respeito ao samba tradicional e a levada instrumental. E, se pudéssemos acrescentar uma terceira, o ensinamento de que música boa não se faz sozinho.

Mudança silenciosa, barulho estrondoso

Caso você veja um grupo de pagode se apresentando em um boteco e alguém chegar com um repique ou um tantã, saiba que nem sempre foi assim. Ubirany explica que, naquele instante em que começou o Fundo de Quintal, um grupo de samba tinha a cozinha musical composta por tamborim, agogô e reco-reco, somados aos enormes instrumentos de percussão. Tudo mudou com a chegada deles.

Um dos fundadores do grupo, Almir Guineto, falecido em 2017, introduziu o banjo com braço de cavaquinho. A mudança silenciosa fez um barulho estrondoso. Mas não foi a única inovação.

“O Sereno, com o tantã, substituiu o surdo na marcação. Eu, com o repique-de-mão, dei o molho, o suingue, e fizemos um casamento muito rico. Eles se entrosam de uma maneira especial”, define Ubirany. “Tudo isso somado ao pandeiro do Bira, com letras completas, com início, meio e fim, e com a irreverência do partido alto, o samba teve uma guinada legal. Tanto que os outro grupos começaram a ter uma formação instrumental baseada no Fundo de Quintal. É o maior prazer e uma das maiores gratificações termos influenciado esses grupos.”

Som tirado de baldes e panelas

Nada disso, porém, foi programado ou nasceu pronto. Ubirany conta que, até mesmo para dar a forma final ao instrumento que ajudou a criar, foi preciso adaptação: “Eu tocava em balde, panela, qualquer coisa. Um dia, o Edson, que era baterista, pegou um tom e colocou na minha mão. Deixou aquele comigo e, quando tinha pagode, eu levava. Em outra oportunidade, pegaram um repenique de escola de samba, que é tocado com baqueta, e acabei tocando com a mão mesmo. O som era abafado, com pele dos dois lados. Então, tirei de um dos lados e deixei [o som] mais aberto. Só que o aro de metal machucava os dedos. Logo, em outro passo, rebaixei os aros. Mas ainda tinha muito metal. Aí troquei as varetas por madeira para 'secar' mais o som”, descreve, antes de fazer uma ressalva. “Todo mundo fala que criei [o instrumento]. Mas o que eu curto mais [ter inventado] foi a levada que ainda me empolga quando toco.”



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